Conto da vida de João

João era um homem bom – ao menos se achava um. Frequentava a igreja, ouvia e obedecia às palavras de seu orientador espiritual. Engajou-se (nas redes sociais) em várias campanhas em favor da família tradicional, dos valores morais, contra a imoralidade. Certa vez, chegou a ir a um protesto na porta de um museu que estava expondo obras que ofendiam Nosso Senhor Jesus Cristo. Morava no Centro da cidade, bem perto da rua por onde passava todo ano a Parada Gay – dia em que ele reunia a família para um passeio em alguma cidade próxima (afinal, ele precisava manter sua família longe da infâmia, evitando maus exemplos).

João morreu. Viu-se, de repente, diante da figura de Cristo, crente de que alcançaria a misericórdia eterna por conta de sua vida de devoto.

Levou um susto quando o Filho de Deus lhe disse: “Aparta-te de mim, maldito, e vai para o fogo eterno.”

Aterrorizado, vacilante, tentando argumentar, balbuciou: “Mas, Senhor, eu tive uma vida toda de serviço a Deus!”

Jesus respondeu: “Tive fome, e não me deste de comer; tive sede, e não me deste de beber; sendo estrangeiro, não me recolheste (você inclusive reclamava da ‘invasão haitiana’); estando nu, não me vestiste; e enfermo, e na prisão, não me visitaste (ao contrário, você vivia pregando: ‘bandido bom é bandido morto’). Fui à Terra deixar um novo mandamento, o mais importante de todos: Amai-vos uns aos outros. Você negligenciou o principal mandamento… Você devia saber que não gosto do fermento dos fariseus, a hipocrisia.”

E assim terminou a história de João.

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