Desapresentação

Desapresentação

Não posso apresentar-me adequadamente, porque ainda não sei quem sou. Então, desapresento-me.

Biologicamente, um ser humano adulto macho cisgênero branco com 1,86 m de altura, massa aproximada de 90 Kg, tez morena, olhos verdes, raros cabelos grisalhos e marcas de histórias no corpo, como, por exemplo, uma cicatriz na coxa direita em forma de amêndoa, de uma polegada de largura, derivada de corte provocado por uma folha de capim-gordura durante uma brincadeira infantil qualquer num passado rural distante.

Para além desse corpo físico, que se move, produz som, excreta, sente eventualmente algumas dores e doses ocasionais de boas sensações e é o indício visível de que há aqui um ser vivente reconhecido por terceiros, está uma psique (alma, espírito?) cindida em duas partes interprenetrantes e coviventes. Uma em perpétuo estado de suave angústia e tristeza pelas dores do mundo (maldade, miséria, machismo, misoginia, homofobia, corrupção, preconceitos etc. etc. …) – que já sentiu amarguras quase insuportáveis, mas a certa altura convenceu-se de que não havia sentido em carregar o peso dessas dores que não lhe eram alheias mas também não eram suas e assim conseguiu reduzi-las a um estado parecido ao de um melancólico fundo musical permanente na trilha sonora da vida, que, contraditoriamente, também serve de escudo ante os horrores da humanidade (a tristeza suave é um consolo que acaba por tornar viável a sobrevivência – “ainda que sobre ruínas, é possível construir uma morada”). Outra em estado de abertura, relacionando-se com o mundo e com as pessoas como se fossem e esperando que sejam normais, boas, viáveis (e parte efetivamente é, embora o conjunto pareça que não) e ao mundo e às pessoas se entregando com excessiva e talvez descabida confiança.

Frequentemente deparo-me com sombras do passado e não me reconheço nelas, metamorfose ambulante de alguém que já foi até militante da extrema direita católica. Sim, passei quatro anos em religiosa clausura, amei a Deus sobre todas as coisas (mas não, confesso, o próximo como a mim mesmo, porque o excessivo desejo de fazer os outros iguais a mim na fé e na virtude não parece compatível com esse amor), desejei ardentemente uma sociedade teocêntrica e eclesial, num mundo monárquico e hierarquizado. Pois é, não me reconheço. Ainda hoje me ecoa nos ouvidos o latim dos cânticos e orações, que sei de cor. Como então crer que possa me apresentar?

Minhas próprias histórias às vezes me espantam. Viajei de fusca por boa parte do Brasil, dormi incontáveis noites num banco de carro, no chão, em rede, na areia da praia, na barraca à margem do rio; tomei banho de caneca e de cachoeira. Passei fome, vivi anos da esmola alheia, comendo de favor, tendo apenas os bens que cabiam em uma única mala. Peguei várias caronas de avião, algumas literalmente conversando com o piloto na beira da pista. E também de caminhão, carro e trator. Andei e caí muitas vezes de cavalos e bicicletas, fui do Brasil à Argentina a nado (atravessando o rio Iguaçu 7 km a jusante das Cataratas), já tive metralhadora apontada para o peito (e as pernas viraram geleia), encontrei-me com vários presidentes de diferentes repúblicas, conheci (e apertei as mãos de) torturadores e ditadores. Entrei em cortiços e favelas, palácios e mansões, puteiro, loja maçônica, catedrais seculares, cabanas de pau a pique. Nem sei direito como coube tudo isso numa vida só…

Tenho, como todo mundo, desejos secretos e escondidos, da carne e do espírito. Os da carne são mais realizáveis, enquanto os do espírito andam pelos círculos dos sonhos, pois vivo preso a minhas escravidões.

Disfarço em terno e gravata, cotidianamente, sob a rotina, o artista que às vezes sobe ao palco – raro lugar onde encontra efemeramente, sob as luzes da ribalta, sentido, luz, fôlego, brilho, glória. Alguns projetos estão também empacados em meia dúzia de livros começados, já completamente esquematizados na cabeça e/ou no papel, mas cuja grandeza assusta. Olho regularmente o que escrevi e acho que não parece ter sido feito por mim (e não foi, porque quem escreveu já não é mais este eu de hoje) e me sinto incapaz de terminar obra de tal nível – e esse sofisma alimenta a contínua procrastinação que adia finalizações para não se sabe quando…

Fujo da escravidão cotidiana em solitárias viagens pelo mundo, de mais tempo em menos lugares (a alma precisa acostumar-se com o entorno para poder fruí-lo) – foram por enquanto 15 países, mas a lista aumenta um pouco a cada ano.

Quase não tenho amigos. E não sei por que, ou talvez imagine. Sou alma isolada, ilhada em excessos de sonhos, que não tem esperança no mundo mas acredita em encontros de almas e que somos todos farinha do mesmo saco, mesma substância, para o bem e para o mal. Carrego certa arrogância, um constante destemor, um desprezo por tudo, um senso do quanto o poder é ridículo. Não escondo sentimentos, deixo livre a paixão, entrego as vísceras por aquilo que amo. Sou direto, digo o que penso, não alimento rodeios. “Tenho defeitos de anatomia, e são sérios: mãos muito ligadas ao coração, língua perto demais do cérebro.” Talvez isso tudo assuste e afaste. Pena não ter um amigo que me aponte os defeitos…

Sou ao mesmo tempo cético (afasto-me das religiões institucionalizadas) e crédulo (creio ser possível qualquer coisa, e já vi algumas em que poucos acreditariam). Não me dou muito ao trabalho de avaliar a questão da divindade, por estar ciente da impossibilidade de julgamento em relação a assuntos que transcendem a compreensão.

Quanto à política (refiro-me à prática política, com “p” minúsculo, como se dá no Brasil de hoje), tenho asco. Desconfio previamente de todos os partidos, políticos e autoridades. O poder corrompe. Repudio rótulos, mas alguns insistem em dizer que sou de esquerda – que assim seja, apenas e tão somente, quanto a meu desejo de humanismo e meu repúdio à inaceitável desumanização (será isso característica da “esquerda”? – duvido que ainda exista uma distinção clara entre “direita” e “esquerda” hoje). No entanto, em minha essencial contradição, sou burguês bem de vida com renda maior que de 99% da população mundial (é o que dizem as estatísticas).

Dou-me a prazeres miúdos: livro, música, filme, passeio, conversa e convívio com as pessoas que amo, um jogo de futebol, cerveja (ou alguma outra bebida que momentaneamente me agrade: gin, arak, vinho… – mas nunca bebi a ponto de perder o autocontrole, ideia que rechaço, razão pela qual jamais consumi drogas ilícitas, e nisso sou o típico “careta”, embora defenda a liberação legal de todas as substâncias para uso de quem as queira). Os maiores são as viagens. Gosto de estar comigo mesmo, não tenho medo da solidão, posso andar a pé quilômetros só observando o mundo e pensando.

Luto contra um antigo hábito de guardar papéis (inclusive livros, tenho dificuldade de desfazer-me dos meus) – o único que não consigo acumular é o dinheiro: se tenho, gasto, não sou guardião de tesouro. Apraz-me mais somar experiências de vida.

Agora sou este, amanhã já não sei. Se posso traçar alguma linha coerente no zigue-zague desta minha vida, espero que ela aponte para uma constante e crescente humanização, até o dia em que tudo se dissolva em espírito (ou desapareça para sempre?).

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