Crônicas

“Éramos seis...”

Cemitério da Consolação, São Paulo. Uma tarde ensolarada em meados de maio de 1984. Minha alma, então no frescor da fé, vaga entre as tumbas, envolta na oração e na contemplação da arquitetura mortuária, por vezes tão complexa quanto o mistério que representam seus monumentos: beleza, horror, leveza, tormento, despojamento, luxo… díspares ideias concretizadas no tijolo e na pedra. Próximo ao corredor dos fundos, sombreado por comprida fileira de árvores,

Estarei no estádio no próximo jogo

Quando o homem de preto assoprar a latinha para o início da peleja, eu estarei lá. Estarei no meio da torcida, vibrando, gritando, aplaudindo, incentivando o meu time. Não importa qual será o jogo, que time estará do outro lado, qual o campeonato. Pode ser um time “sem série” na Copa Sul-Americana, na Copa do Brasil, na Sul-Minas ou Sul-Minas-Rio. Pode ser um Torneio da Morte ou um “ruralzão”. Não

"Afazeres"

Dia de folga durante a semana. Dou uma olhada na lista de afazeres. Fazer essas listas é hábito herdado de meu pai, que andava com cartões no bolso onde anotava tudo que precisava fazer, riscando as tarefas cumpridas. Diariamente, renovava a relação, incluindo coisas da véspera que não tinha conseguido deslindar. Minha lista para o dia de folga tem várias coisas que não consigo fazer nos “dias úteis” porque trabalho

Homem é preso por desordem no Batel

Atendendo queixas de moradores da região, a Polícia Militar prendeu ontem um homem que estava causando incômodo nas proximidades da Praça do Batel. Identificado como Eduardo Nazário, o homem, aparentando pouco mais de 30 anos, é suspeito de dirigir uma gangue de moradores de rua e trabalhadores desempregados. Quando foi preso, vestia roupas velhas e estava sem tomar banho e barbear-se havia vários dias. Alguns moradores da região comentaram o comportamento

Merry Christmas (Canadian Inspiration)

Jogou seu último resto de cigarro na rua. Acabara de decidir que seria mesmo o último – e quando ele decidia, estava decidido: seria efetivamente o último cigarro da sua vida. “Vida”, pensou – “é isto que eu quero.” Saiu a perambular livremente pelas ruas, apenas absorvendo as sensações que a cidade lhe passava por osmose. Sentiu no rosto o vento gelado do inverno abaixo de zero. Respirou fundo, colocando

Ser pai

Neste domingo, admirava meu filho. Vi seus dedos ágeis e rápidos tocando ao piano uma música difícil que nunca ousei tentar. Contemplei seu desenho mais recente, que eu jamais seria capaz de fazer. Lembrei-me de suas frases de efeito, tão bem humoradas. De sua incrível habilidade no computador, digitando em inglês com os dez dedos sem nunca ter feito um “curso de datilografia”…. Comovi-me ao rememorar tantas atitudes suas que

Morreu minha Branca de Neve

Todos os dias, eu passava diante daquela casa. Era uma casinha de contos de fadas: parecia ter sido construída para anõezinhos. Não que fosse uma casa pequenina, mas tudo nela era menor do que o normal. Entretanto, não era isso o que mais me chamava a atenção. Ela era toda branca, muito branca – as paredes e os muros do terreno de esquina. Mas talvez a característica mais propensa a

Morreu Diaféria

Morreu hoje o jornalista Lourenço Diaféria, que foi cronista da Folha de S. Paulo. Fiquei triste. Diaféria possibilitou-me o primeiro contato com as arbitrariedades da ditadura. Explico… Minha cidadezinha natal, Cambará, na década de 60, tinha um sistema de vida muito ligado à vida rural e uma predominante mentalidade conservadora típica dos proprietários de terras. Meu pai era eleitor da Arena e assinante do Estadão. Eu vivia na alienação típica

Por que gostamos tanto de futebol?

Sempre me pergunto por que gostamos tanto de futebol. Eu mesmo, grande apreciador desse incomparável esporte, não consigo entender meu próprio gosto. Tento forçar a memória para me lembrar como me surgiu este apego tão inexplicável. Vejo-me com 14 anos em Cambará, no interior do Paraná, minha cidade natal. Quando nasci, Cambará vivia as últimas glórias (moderadas, é verdade…) do CAC – Cambará Atlético Clube, campeão do Norte Paranaense em

A régua

Um dos prazeres da vida adulta é poder realizar alguns desejos de criança – mesmo que, em geral, a realização seja um tanto frustrante, pois o sonho alcançado invariavelmente fica longe do sabor do sonho sonhado em tenra idade. Lembro-me, por exemplo, do meu gosto infantil por camarão. Morávamos longe do mar, e camarão era iguaria fina e cara, ao menos para nós. Uma vez por ano, nas férias de